Travestis, Transexuais e Prostituição

Travestis, Transexuais e Prostituição
"Trabalho em nossa cultura pressupõe algumas condições." —email: oswrod@inpasex.com.br

Muita gente pensa que transexuais e travestis são a mesma coisa. Vistas de fora até podem parecer, mas existe algo importante que as diferencia: a identificação intrínseca de gênero.

Mulheres Transexuais se compreendem pertencer ao gênero oposto ao designado no nascimento. Travestis reconhecem seu sexo biológico e se apresentam como mulheres socialmente.

Em nossa cultura as travestis sempre foram vistas nas ruas e compreendidas como prostitutas que usam roupas extravagantes e sensuais para atrair clientes sexuais em troco de pagamento para subsistirem.

O primeiro impasse para travestis e transexuais obterem um trabalho é a identidade oficial, documentação que as impede de serem percebidas pelo que mostram visualmente. Este disparate é percebido como mentira pelo empregador, uma falsificação da realidade. O empregador não tem como saber se esta pessoa é o que diz ser. Os documentos de identidade funcionam como um mecanismo que avaliza as pessoas, podem ser consideradas pelo que mostram: o documento de identidade.

Outro ponto importante é como o empregado será compreendido, reconhecido, percebido pelos que utilizarão o serviço para o qual está sendo contratado. E este fator impede muitos empregadores de assimilarem transexuais. As travestis, se forem diferenciadas, são associadas à prostituição, roubos e ilegalidade. Assim são percebidas de modo negativo que as impede de serem contratadas.

O mecanismo de percepção é sempre pré-concebido. Trata-se de um mecanismo cognitivo que exige utilizar as percepções vividas no passado para compreender o presente e decidir por um futuro. Assim, tudo o que foi ouvido desde criança a respeito de travestis influenciará na tomada de decisões a respeito das travestis. E aqui se incluem transexuais e todas as formas transgênero. Na busca de facilitar a compreensão, o mecanismo cognitivo reduz as possibilidades a uma única: “um homem que se veste de mulher, que quer se passar por mulher, sem o ser…”

A dificuldade em se aceitar algo que é pressupostamente diferente do que se compreende e a realidade se encontra nessa base. Desde criança aprendemos que só existem homens e mulheres que são machos e fêmeas e que devem desejar, respectivamente, mulheres e homens.

Ao aprendermos assim, na infância, podemos nos identificar e nos desenvolver enquanto possíveis adultos. Assim passamos de 15 a 20 anos reforçando estas ideias iniciais para confirmar o que somos. Apenas podemos escolher uma de duas alternativas, mas que de verdade tem variações inúmeras que não são socialmente compreendidas ou assumidas como reais. Desta maneira não podemos admitir que exista uma pessoa que destoa do esforço que fizemos para produzir as identidades sociais que apresentamos a cada dia de modo igual.

A elaboração da existência de identidades sexuais além dos binômios homem-mulher, macho-fêmea, e da interação única heterossexual, exigem muito esforço cognitivo, emocional e comportamental. A maior parte das pessoas preferirá usar esta energia para outras finalidades, inclusive produtivas economicamente. Esta elaboração é exigente e não pressuposta nas vidas das pessoas. Mesmo as famílias que vivem com uma pessoa transexual e precisariam adaptar-se, mostrarão grande dificuldade em compreender, elaborar e mudar suas perspectivas cotidianas e adaptar-se a esta identidade não prevista pela família.

Outras pessoas tem menos necessidades de se adaptar, embora também tenham um afastamento afetivo que permita gastar menos energia para modificar suas formas de compreender a realidade.

Muitas transexuais percebem na prostituição como o único meio de obter subsistência num mundo que não as absorve profissionalmente, nem facilitou meios de que desenvolvessem qualidades de trabalho. Em algum momento cada transexual reconhece que alguém se lhes aproxima fisicamente e socialmente com interesses libidinosos, exatamente por serem o que são: intermediários no gênero e no papel social. Este caminho conduz a formas de trocas de favores por dinheiro com facilidades.

Uma vez iniciada a vida da prostituição, sem alternativas de trabalho oficializados em nossa sociedade, estas pessoas ficarão na prostituição.

Mais transexuais do que travestis lograrão obter relacionamentos afetivos-sexuais que permita deixarem a prostituição. A transexual assume a identidade de gênero oposta, permitindo aceitação social e convívio para o parceiro que a assuma.

As transexuais que se dedicaram à prostituição sofriam por perceberem que os clientes as buscavam por serem ‘eles’ e não elas. Este sofrimento é o pior, o mais difícil de administrar. Uma travesti tem esta situação de modo congruente.

A prostituição será abandonada se outra forma que as reconheça na identidade de gênero à qual compreendem que pertencem, mesmo que isto signifique rebaixamento de facilidades sociais financeiras.

Nossa cultura ainda tem muito a caminhar para facilitar que as expressões alternativas de gênero, que se ligam à percepção de sexo, sejam absorvidas e tornadas úteis. As formas que são minoritárias tem sido desconsideradas na esperança de que deixem de existir, mas isto não ocorre…

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