Transgenitalização – O Papel do Psicólogo

Transgenitalização – O Papel do Psicólogo
Seguir o tratamento psicológico ajudará a vencer possíveis problemas. —email: oswrod@inpasex.com.br

Existem pessoas que nascem com uma dificuldade que até a poucas décadas não era considerada: compreender-se pertencente a um sexo e ter o corpo do outro sexo. A esta condição se chama de transexualidade, ou transgeneridade.

A “mudança de sexo”, redesignação sexual ou transgenitalização depende de compreendermos uma condição que implica numa identidade de gênero discordante com a anatomia com a qual a pessoa nasceu. Um diagnóstico implica que não se trata apenas de uma motivação da pessoa, seja qual seja esta motivação. Apenas devem e podem fazer estas modificações físicas as pessoas que não tenham intercorrências psiquiátricas e que realmente sejam beneficiadas pelas cirurgias, além de serem apenas as pessoas que já desenvolveram as etapas psicossociais que comprovam o diagnóstico e fazem com que a pessoa já esteja emocional e socialmente adaptada para a nova identidade social que viverá. Estas pessoas terão muitas dificuldades no mundo social. Não se trata exatamente de um preconceito da sociedade, igual às outras situações onde apontamos preconceitos. Mas as dificuldades são enormes e precisam ser enfrentadas dentro de uma adaptação e adequação.

Uma pessoa que tenha nascido homem, designado homem por um nome e criado pelos pais enquanto homem recebe a expectativa dos pais, da família e socialmente de todos para que ele cumpra o papel a ele designado. Quando este homem percebe-se pertencente ao gênero feminino, está contrariando todas as expectativas que o mundo tem e que são baseadas em evidências físicas. Os pais, a família e o mundo social que vive ao redor deste homem não tem como compreender o que ocorre. Esta tem sido a razão de determinarmos uma qualificação de enfermidade para que possa ser tratada, promovendo uma correção física para que venha a ocorrer um equilíbrio

Esta condição transexual é de recente reconhecimento e ainda não é compreendida pela maioria população. Isto gera muito desconforto quando alguém tenta ser algo diferente do que o mundo sabe que aquela pessoa é. Quanto mais tempo se passa na vida desta pessoa, mais o mundo não compreenderá o que ocorre. Mais dificuldades com a família e o mundo haverá para que essa pessoa enfrente e, consequentemente, sofra. Enfrentar e superar cada um dos problemas que preexistem e que ainda ocorrerão no decorrer das mudanças exigidas para desenvolver a nova coerência sempre trará novas frustrações e dificuldades a serem enfrentadas.

A pessoa precisa desenvolver novas formas de enfrentamento social e emocional. O primeiro passo na transformação de identidade social diz respeito a compreendermos as características desta pessoa, efetuarmos um diagnóstico psicológico e outro psiquiátrico. Não existindo problemas psiquiátricos, o trabalho psicoterápico será de adequação social para a nova identidade. Semanalmente, por muitos meses, auxiliaremos a pessoa a se adaptar à identidade desejada, que nem sempre é percebida em termos reais e precisa de orientações. A visão externa do psicoterapeuta pode corrigir rumos e dar certezas para a pessoa. O desenvolvimento de comportamentos e atitudes coerentes com o buscado convive com as sessões psicoterápicas semanais. Auxiliar a desenvolver novas habilidades sociais (provavelmente inexistentes e as que sejam necessárias com a nova identidade) e preparar-se para possíveis relacionamentos afetivo-sexuais (que será maior foco após as cirurgias). Cuidar para que não se desenvolvam qualidades negativas e psicopatológicas será outra vertente do atendimento psicológico.

Todo o trajeto haverá a necessidade de auxiliar estas pessoas a administrarem as ansiedades e frustrações preexistentes e que ocorram durante o trajeto. Este acompanhamento pode demorar-se por dois anos, mas deve prolongar-se após as cirurgias, inclusive prevendo retoques cirúrgicos que produzem novas frustrações e dificuldades emocionais a serem vencidas.

O procedimento profissional que fará o psicólogo dará condições ao cirurgião de ser efetivo no que se propõe. Mas sempre existirão cirurgiões que acederão fazer uma cirurgia sem que a pessoa esteja adequada a enfrentar a cirurgia e as mudanças radicais que ocorrerão. A questão é que estes cirurgiões não conseguem dar a atenção necessária para as transformações e do ponto de vista da paciente, eles serão responsáveis pelo sofrimento não previsto por elas… e passam a compor uma “lista negra” de cirurgiões de transgenitalização que roda pela internet.

O cirurgião deveria exigir que houvesse o acompanhamento anterior e o compromisso da paciente em seguir sob atendimentos psicológicos após a cirurgia. Isto em paralelo a avaliação psiquiátrica, e tratamentos e cuidados de endocrinologista e fonoaudiólogo.

No Brasil devemos ter perto de 50 mil pessoas que poderiam ser diagnosticadas na condição transexual. Estarem preparadas para a cirurgia, pouquíssimas, e necessitariam de atenções psicológicas para que se preparassem para a cirurgia.

Existem aspectos psicológicos que exigem desenvolvimentos para os enfrentamentos que ocorrerão. Mesmo com cuidados e atenções existirão pacientes que sofrerão muito no pós-cirúrgico, reclamarão muito de dores e malestares, deprimirão… e ninguém merece estes sofrimentos.

Infelizmente, devido a compreensões inadequadas, pessoas que se compreendem na classe dos que devem ser submetidos a cirurgias telefonam sempre à busca de um “laudo” que lhes permita submeter-se às cirurgias… Não querem passar pela psicoterapia, e se propõe a pagar pelo “laudo”… nós não fazemos isso. Só podemos assinar pelo que fazemos e no que cientificamente acreditamos, seguindo protocolos que nos assistem a cumprir finalidades de saúde mental e social.

Quem se localiza nesta condição, precisa desenvolver muitos aspectos para que aprenda a administrar a nova realidade que existirá. Seguir o tratamento psicológico ajudará a vencer possíveis problemas, sejam preexistentes, ou que venham a ocorrer ou se desenvolver ao longo das mudanças.

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