Casais e Problemas Sexuais

Casais e Problemas Sexuais
"Sexo é realmente algo muito mais complicado do que a princípio parece." —email: oswrod@inpasex.com.br

Nestas quase três décadas ouvindo pessoas com queixas sexuais, em especial em consultório particular, quase sempre apenas ouço a pessoa trazendo o problema e culpando-se por ter esta dificuldade sexual. Mas em cada problema ou queixa sexual, tem algo mais ao redor que precisa ser considerado.

Os homens têm vindo buscar tratamento com suas dificuldades eréteis e ejaculatórias, sempre achando que precisam consertar-se para “dar prazer” a suas parceiras. Desconsideram a inserção do problema sexual… Nunca existe a disfunção erétil apenas, sem uma parceria sexual. A consideração da parceria sexual em homens com queixas eréteis tem sido mais discutida e apontada para favorecer o tratamento. Nenhum paciente se consulta por D.E. sem associar o problema ao coito, cópula, relacionamento com outra pessoal.

Propomos olhar os padrões de relacionamento sexual feminino associado à Disfunção Erétil. Não estamos afirmando que as parceiras produzem o problema sexual de ereção nos homens, mas queremos apontar quando alguns problemas sexuais femininos se associam às dificuldades sexuais masculinas.

Os pacientes que atendemos em clínica particular referem às parcerias associadas da seguinte maneira aos problemas sexuais:

 – Preocupação de a parceira engravidar: Sempre se preocupam = 25,6%; às vezes se preocupam= 18,6%;
– Sobre o desejo sexual pela parceria: ausente em 26,2% ou variável em 21,4%;
– Sobre a parceira ter algum tipo de problema sexual, 40,4% dos pacientes acreditam assim;
– A parceira sexual se ressente com o problema erétil (15,9%)
– 54,5% dos pacientes não consideram que a parceira sexual seja a causa do problema.

Estas percepções sempre nos fazem pensar, pois algumas situações deveriam ser mais óbvias…

Separamos alguns exemplos para observarmos a interação que implicam estas problemáticas no relacionamento interpessoal:

– virgindade da mulher;

– vaginismo;

– fobia sexual;

– inibição do desejo sexual;

– inadequação da relação do casal (comunicação falha e dificuldades interpessoais).


Disfunção Erétil e a Virgindade da Mulher

Homero e Cyntia casaram-se poucos anos após se conhecerem e começarem a namorar. Ambos com idades entre 35 e 40 anos. Depois de 4 anos morando juntos decidiram buscar tratamento devido à “decisão” da esposa em ter filhos. Explicava ela que devido à idade, “ela não poderia mais esperar”, justificava que assim o seu médico ginecologista já apontara. O casal nunca tivera um coito completo, nunca teve penetração e ela se apresentava como virgem.

Com a motivação para engravidar consultou ginecologista apenas agora, pois até então nunca consultara um médico. A vida sexual desenvolveu-se através de jogos sexuais sem penetração no casal. A ereção dele sempre foi questionada desde o começo do relacionamento, pois ele tivera algumas perdas de ereção tentando penetrar.

Solicitamos à paciente que se consultasse com um ginecologista que pudesse atentar às questões sexuais, e não apenas à consulta ginecológica usual. Com o exame pélvico a ginecologista afirmou que a paciente era virgem “como uma menina de 12 anos” e ainda tinha uma pele extra fora da vulva que cobria quase 2/3 da entrada da vagina. Então a paciente nunca poderia ser penetrada, mesmo o espéculo não podia ser usado pela médica. Ela teria que ser submetida a uma cirurgia para eliminar o inconveniente anatômico. A ginecologista disse que não tocaria no hímen, pois isso seria um problema para ser tratado na terapia sexual para que o casal viesse a ter um coito.

Assim compreendemos uma das causas da disfunção erétil de Homero: uma virgindade impossível…

Podemos compreender que este casal apresentava alguma distorção da percepção da realidade que os impediu de considerar a virgindade. Esta mesma virgindade já deveria ter sido considerada enquanto a terceira década de vida já se iniciava, afinal, esta mulher estava distante das médias sociais de iniciação sexual, que estaria ao redor de 16-18 anos de idade.


Disfunção Erétil e a Fobia Sexual da Mulher

Marlene tinha 27 anos, muito bonita, que considerava que tinha que arranjar um namorado e ter sexo com ele. A ideia do Príncipe Encantado sempre esteve presente: jovem, gentil, a quem ela amasse e que seria o homem certo para se fazer sexo.

Mas o príncipe encantado não é fácil de encontrar.

Na última tentativa ela encontrou um homem, um pouco mais velho, e ele não conseguia obter ereção peniana. Ela decidira “fazer sexo com ele não interessava quão difícil fosse”.

Era muito difícil para ela fazer sexo. Ela não se sentia bem, tinha náuseas, tonturas, tremedeira nas pernas e as mãos suadas. E isso foi o que ela sentiu nas duas vezes que tentara sair para faze sexo…

Na primeira vez ela se sentiu muito mal, mas ela não considerava aquele rapaz como aquele certinho para a primeira vez. Justificando-se assim, a culpa era do outro, não precisava considerar o que sentia ou pensava, já sabia.

Na última vez ela escolhera o homem certo, ela tinha certeza de tudo, era alguém que a “respeitava”… Os medos dela relacionavam-se com “a dor e o sangramento da primeira relação”. Era algo que ela não sabia explicar, mas decidira enfrentar. Como todo esse medo, o parceiro teve dificuldade em se erotizar, pois ela se mantinha imóvel, tensa, expressando os sintomas que ela já tivera… Seria impossível dele obter uma ereção… E mantê-la!

Ela apresentava um comportamento fóbico, mesmo forçando a situação ela não conseguia alcançar prazer fazendo sexo, ela sentia medo, pânico, e um terror irracional sem controle voluntário.


Disfunção Erétil e Vaginismo

César veio para uma consulta com queixa erétil. Ele pensava que a dificuldade de ereção seria resultado de um problema neurológico diagnosticado havia 10 anos e tratado com medicamentos durante toda a década. Fora diagnosticado com epilepsia após um eletroencefalograma, através dos sinais registrados pelo polígrafo, e passou a tomar um anticonvulsivante comum (fenobarbital). A situação era nova para este jovem de 22 anos que tentou sexo com uma prostituta e falhara, e não mais tentara.

Agora ele não sabia o que fazer com esta “namorada” que recentemente encontrara numa festa. Ela era mais velha e tinha um bom emprego e uma vida independente. Tão logo se encontraram e começaram a conversar, ele já soube que ela não tivera muitos namorados, porém ela saia bastante, mas não ficava com os rapazes, nem namorava.

Era tudo o que ele precisava, igual a ele! – pensara.

Na primeira tentativa de coito os problemas apareceram. Ele teve dificuldades em manter a ereção (“não poderia penetrar, mesmo que tivesse a oportunidade de tentar…”). A conclusão é que ele “sabia” que tinha problemas eréteis e que precisava tratamento… O que ele não percebia era que ele havia encontrado a “parceira sexual ideal”:

– Ela era incapaz de relaxar os músculos da entrada da vagina e ter o coito. Ela não sabia como relaxar os músculos vaginais e ser penetrada.

Ela tinha vaginismo e apenas um homem com disfunção erétil não a incomodaria sexualmente.


Disfunção Erétil e a Inibição do Desejo Sexual Feminino

João estava apaixonado pela Celina. Eles eram um casal perfeito, e todos diziam isso. Eles fizeram planos para casar. Estiveram em motéis para terem privacidade e intimidade. Ele adorava fazer sexo com ela. Morando em uma cidade grande como São Paulo, eles não tinham muitas oportunidades de se encontrarem mais frequentemente…

Eles se casaram! Eles tinham tudo… Ou quase!

Com a vida diária, João pensou que eles conseguiriam fazer sexo a cada noite ao retornar do trabalho, e talvez em algumas manhãs antes e sair de casa. Desde o primeiro dia casado isso não aconteceu. Ela sentira algo de ruim que não conseguia explicar, e isto não a deixava ter sexo.

Ele sentiu-se deixado de lado neste casamento, e mantinha-se insatisfeito em seus desejos.

Ela lhe dizia que o amava, diariamente…

Ele a desejava, mas ele não poderia forçá-la a fazer sexo, ele não era violento e ele não faria sexo se ela não desejasse…

Eles mantiveram uma frequência sexual bem baixa, às vezes menor que antes do casamento…

Uma vez a cada 10 dias, ou 15 dias…

João não desejava outra mulher, nem uma amante para de vez em quando. Ele se comprometera com esta mulher e manteria a palavra. Tentou deslocar sua motivação para outros aspectos do mundo: trabalho, esportes, amigos… Ao final de um ano de casamento, a frequência sexual era de uma vez ao mês.

Ele parecia satisfeito até ele perceber algumas dificuldades em  manter ereção numa noite de novembro (ele podia lembrar a data…). Na próxima vez, um mês mais tarde, entre o Natal e Ano Novo, ele sentiu pela primeira vez a dificuldade em obter a ereção. Celina deu-lhe toda a compreensão e carinho. Ela disse que ele não deveria se preocupar, ele funcionaria mais cedo ou mais tarde, agora ele deveria dormir um pouco. Ele pensou quão “compreensiva ela era…”.

O que ele não notava era que ela não desejava sexo, e isto seria muito conveniente: ele ter aqueles problemas de ereção. Desde então, ele tem tido problemas de ereção e a frequência coital diminuiu mais ainda. A baixa motivação para o sexo nesta mulher produziu o problema de ereção.

E esta é uma forma das esposas “ajudarem” o homem a desenvolver um problema sexual.


Disfunção Erétil e Relacionamento Inadequado do Casal

Uma das formas mais comuns de discursos de casal que se ouve num consultório sexológico:

– “Eu Não tenho que dizer isso para ele, ele já sabe!”

Ou:

– “Essa coisas um homem deveria saber, a mulher não tem que dizer isso”.

Assim eram Walter e sua esposa.

Após uma década de casamento, eles procuraram a psicoterapia para solucionar alguns problemas eréteis  que produziam muitas discussões conduzindo a falarem de divórcio.

O problema tinha dois lados:

– Ela cria que eles não precisam falar abertamente sobre sexo, pois sexo é natural e eles deveriam saber como fazer…

– Ele era “tímido”, assim se explicava,  quieto, trabalhador, e não falava sobre si mesmo e muito menos sobre seus sentimentos.

As dificuldades eréteis aumentaram com o tempo. Eles não falavam sobre suas necessidades de sexo, conversar e expressar sentimentos e emoções…

Ao acreditarem nesta “naturalidade” do sexo e de compreenderem que não precisariam conversar diretamente sobre sexo, deixaram o tempo passar, mesmo que estivessem desconfortáveis com a não vida sexual que viviam.

Concluindo…

E onde, em quem estão os problemas?

Em ambos! Sexo não é um problema de apenas um dos cônjuges, sexo é um problema de casal. Podemos localizar muitas vezes mulheres com problemas sexuais associadas à gênese de um problema sexual masculino… E um homem, que anteriormente, já é incapaz de administrar suas dificuldades, expressar suas necessidades, emoções e ser assertivo para solucionar estas dificuldades.

Trabalhar problemas e queixas sexuais com o casal sempre permitirá ao psicoterapeuta estar um passo à frente para programar as sessões seguintes.

O casal também se beneficiará no atendimento, pois questões de casal sempre poderão ser inseridas e problemas minorados no caminho de solucionar os problemas sexuais.

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